nazaré

 

Nazaré sempre viveu em Belém, porém, há mais de 40 anos, convive com a cultura e modo de vida marajoara em decorrência de seu casamento com um chaviense do rio Arapixi.

Fez questão de criar seus filhos em permanente contato com as pessoas e costumes do lugar e, consequentemente, viveu com intensidade os impactos causados pela diversidade entre a cultura local e seu dia-dia no centro urbano.

“a nossa luz daqui é o nosso motorzinho”

 

Lucival Oliveira Nogueira, mais conhecido como Ci, é um marajoara como a maioria: vaqueiro, pescador, caçador e, atualmente, barqueiro. Pilotando o barco, tem a oportunidade de navegar os rios de Chaves conduzindo passageiros, alimentos e as mais variadas encomendas, além do leva-e-traz das notícias e das cartas escritas à mão.

Nesse ir e vir, Ci encontrou a Fotografia. Depois de adquirir sua primeira câmera, chamada carinhosamente de “pretinha”, surgiram as primeiras encomendas para fazer retratos 3×4, geralmente utilizados para emissão de documentos.

No Cururu, entre outras coisas, ainda não há distribuição de energia elétrica, fazendo com que geradores, em sua maioria motores a diesel, sejam responsáveis pela iluminação local. Esta realidade gera uma característica que nos remete próximo ao arcaico, no que diz respeito aos dispositivos tecnológicos presentes na região. Não há, por exemplo, a existência de equipamentos que imprimam fotografias – e por este motivo, Ci carrega os retratos consigo até encontrar a cidade mais próxima onde possa imprimi-los.

Aliando a produção dos retratos à sua vida de barqueiro, Ci tornou-se uma espécie de fotógrafo oficial do lugar.

fluvilab nas vilas

 

 

Entre os dias 10 e 22 de abril desse ano, realizamos nas vilas Boa Esperança, São Joaquim, Apaiari, São Benedito e Nedi Barbosa, o projeto CURURUAR FLUVILAB. Foram cinco oficinas de fotografia que nos proporcionaram uma intensa vivência no rio Cururu.

Trocamos experiências, saberes, ignorâncias, e, sobretudo, trocamos afetos. Esses afetos culminaram em uma sólida relação, onde as práticas exercidas durante as oficinas, contribuíram para o profundo envolvimento entre o coletivo Cururu e a população local. Sabemos, somos diferentes e não somos. Não sabemos e aprendemos, da mesma forma que eles não sabem e aprendem. Dividimos a mesma atenção curiosa e amiga, com sorrisos e abraços.

Além do envolvimento afetivo, as reflexões surgidas, a partir do universo das imagens, nos proporcionaram um intensivo aprendizado sobre a cultura e modo de vida na Ilha de Marajó. Sonhamos, ainda, que eles tenham conseguido sentir por essas reflexões e afetos as possibilidades de transformação.

 

 

 

luci

Entre todos sempre existe alguém que, sozinho, dá sentido diferente e poesia para o momento e o lugar.

A menina era assim: quando a olhava, estava ali no seu canto, elegante, observando a todos com simplicidade e atenção nobre. Acho que em qualquer lugar do mundo – e ainda não conhecemos nada dele – existem pessoas assim, que nos encantam com o olhar, fazendo o coração bater diferente.

Existo! Os olhos da menina me diziam. Também diziam outra coisa: ser elegante é ser você. Ela ali, olhado no fundo do barco o movimento do mundo sem nenhuma razão impositiva. Somente olhando.

Sei que diante dela me sentia bem, ou me sentia melhor do que eu realmente sou. Na verdade, nunca sabia direito se ela estava ali mesmo. O rio Cururu é um lugar de encantados.