cartografia

Comecei a fotografar no Cururu em 2003, naquela época, tinha o costume de fotografar durante o dia e assistir as imagens na TV a noite. Era uma espécie de programa televisivo, onde o roteiro era produzido pelos acontecimentos do dia, narrados pela plateia que se reunia na sala da Cheia de Graça. Era uma fotografia despretensiosa e comprometida somente com o desejo que tínhamos de nos ver em uma fotografia.

Com o passar dos anos a televisão foi posta de lado, o trabalho foi se aprofundando gradativamente e passei a produzir retratos noturnos posados. Um processo que exigia, em média, trinta segundos de postura rígida e altiva diante da câmera, do contrário o retratado não passaria de um borrão, permanecendo somente o rastro de uma aparição na imagem fotográfica. Perante aquele procedimento, não tardou em surgir a indagação: Como fizestes para me colocar dentro da câmera? Essa curiosidade gerou outra pergunta: Por que não tornar acessível, a eles, os conceitos e técnicas que envolvem a produção de uma fotografia? Desde então, carreguei o desejo de compartilhar as práticas e subjetividades que envolviam minha produção de imagens.

O momento seguinte, foi a vontade de transformar o antigo barco boiadeiro, Orvalindo & Filhos, de propriedade do meu falecido avô, em espaço de realização de oficinas fotográficas. Com ele seria possível acessar os rios do município de Chaves e construir uma espécie de cartografia, a partir das vilas ribeirinhas onde as oficinas seriam realizadas. Criamos, assim, nosso FLUVILAB.

A vasta área territorial do município, o acentuado isolamento das vilas, causado pela dificuldade de acesso, o demasiado número de pessoas que pretendia alcançar, entre outras questões, me fizeram perceber a necessidade de integrar uma equipe para realizar o trabalho. Dessa forma, encontrei amigos e parceiros, dentro e fora de Chaves, que se dispuseram a abraçar a ideia, tornando vital a troca e interação entre os grupos para alcançarmos a concretização do projeto.

Elegemos o rio Cururu como ponto inicial de nossa rota de navegação, por ser o lugar onde se constituíram as relações que eclodiram o projeto. Antes mesmo de o barco desatracar, eis que surge nosso primeiro desvio: não dispúnhamos de recursos suficiente, para realização das oficinas. Por outro lado, tínhamos um calendário estabelecido pela natureza, onde o barco só conseguiria acessar todas as vilas participantes, durante o período de cheia no Marajó que, naquela altura, já se aproximava. O não cumprimento daquele calendário, significava o adiamento do projeto por mais um ano, sendo que, naquele momento, as vilas já estavam agitadas com a possibilidade realização das oficinas, seriamos todos tomados por um sentimento de frustração, que abalaria de maneira agressiva as estruturas do projeto.

Inicialmente, o grupo formado em São Paulo tinha como demanda a elaboração da oficinas fotográficas, a montagem de um fotovaral e a elaboração do livro de memórias, produzido a partir da vivência no Cururu. Os grupos de Belém e Marajó, se empenhariam na logística e produção do projeto no Pará. Com objetivo angariar de recursos, partimos em busca de um número maior de parceiros. Montamos uma expedição em que os integrantes, tiveram a oportunidade de vivenciar conosco as oficinas no Cururu. Conseguimos uma significativa doação de alimentos e suprimentos, para os quinze dias em que o projeto se instalaria no Marajó. Com a profusão das atividades, um número maior de pessoas integraram-se ao projeto. Deixamos de ser um coletivo fotográfico, constituído por quatro integrantes, com a finalidade de orientar oficinas no Marajó e passamos a trabalhar coletivamente – São Paulo, Belém e Cururu – dedicados a incentivar a prática fotográfica no Cururu.

As transformações exercidas, em virtude da reconfiguração do projeto, nos mostrou que a alteração de rota inicial e as subsequentes, nos colocou à deriva, e de maneira tão substancial, que passamos de projeto cultural a projeto-poesia.

Já não faz mais sentido mapear os rios de Chaves, atracando e desatracando o FLUVILAB, orientando oficinas pontuais. Nosso desejo comum, nos leva para rotas onde a autonomia da produção fotográfica, no Cururu, se encarregará de escoar, com a fluidez das águas, a fotografia para outros cantos do município.