percurso

No final de 2016 nos aproximamos de pessoas que mudaram definitivamente a rota do FLUVILAB. Em outubro, Giovani, nosso garoto de vinte e três anos, esteve na sede da Fotoativa, em Belém, assistindo ao primeiro relato público do que havia sido o CURURUAR. Por sinal, uma das experiência mais ricas que tivemos, pois tínhamos na plateia, grande parte de nossos apoiadores, curiosos por notícias de nossa aventura no Marajó. Naquela oportunidade, Giovani veio nos falar de sua horta suspensa, de seus projetos com coleta seletiva de lixo, captação de água da chuva, e uma tal de energia fotovoltaica. Ele veio com uma estória de que transformava em energia elétrica, a mesma luz solar que utilizávamos para fazer nossas fotografias. Acreditei! Nos dias que seguiram, mesmo a distância, continuamos conversando sobre todas as possibilidades que ele nos trazia, sendo que, a cada conversa, ficava mais claro sua paixão pelo que ele fazia e o quão preciosa era a sua ligação com o Marajó. Giovani é filho de marajoara por parte de pai e de mãe, neto do lendário Firmo Neto, muito conhecido na maioria das localidades de Chaves. Assim como eu, Giovani passou muito tempo longe do Marajó, e também como eu, construindo suas hortas suspensas durante as oficinas do CURURUAR, descobre todos os dias que nossa luz mais rica está lá, no coração do rio Cururu.

Em novembro, durante a produção de nosso primeiro livro, Tunico se reaproximou da Tamara, indefinível Tamara. Depois de uma tarde de chá em São Paulo, onde divagamos sobre o CURURUAR e Marajó, Tamara nos disse que levaria cinema iraniano para o Arapixi. Eu, que com o Tunico só aprendia dizer sim, respondi na hora: Sim! Nunca me passou pela cabeça que Oriente e Marajó fossem tão próximos. Tamara, em sua oficina de audiovisual, nos trouxe Wesley, um menino tímido de onze anos, fiel depositário de sua câmera durante a oficina de audiovisual no Arapixi, virou diretor de cinema. Ela também nos trouxe o Tucuxi – Paulo Vitor –, ator descolado que protagonizou “Açaí com leite”(uma brincadeira com a luz que virou curta metragem) e “República de Arapixi”, ainda em fase de produção. Gelfson, cineasta nato, se apresentou à Tamara com o filme pronto, pedindo somente para ela editar, e assim surgiu “Pelos rios do Arapixi”. Tamara ora judia, ora budista, mas sempre afetuosa, conheceu Wesley, Tucuxi e Gelfson, com eles descobriu o cinema marajoara.

Pouco antes de minha vinda “provisoriamente definitiva” para Belém, conheci Lara, Gui e Otto. Faziam alguns meses que o Tunico repetia o mantra: “Bê, você precisa conhecer o pessoal do Mirante”. Ele sabia que a tempos buscava outro ponto de vista, em relação a meu projeto fotográfico no Marajó. Além disso, também havia o incessante desejo de mapear os rios de Chaves. O que o Tunico queria que eu soubesse, era que o pessoal do Mirante fazia drones das mais diversas formas e com as mais diversas funções. Ele acreditava que, com esses drones, conseguiríamos mapear nossos rios e obteríamos descrições ampliadas sobre eles. O fato é que o pessoal do Mirante é especialista em criar geringonças que nos permitiram ter acesso direto à cultura marajoara. A oficina de bonecos, trazida por eles, possibilitou o redimensionamento de nossa relação com o Marajó, ampliando nosso grau de intimidade a um nível que nos permitiu transitar livremente pelo universo imaginário do “caboco” marajoara. A partir do vínculo criado, pudemos, pela ela primeira vez, nos questionamos sobre a função da mulher na sociedade, a ausência de lixeiras nas vilas ribeirinhas e qual o destino do lixo produzido nas residências e barcos e tantas outras questões relacionadas ao nosso modo de estar no mundo. Otto, Gui, Lara, Carlos e Alice, nos permitiram iniciar nossa cartografia do afeto.

Esse ano conquistamos mais um território. Antes do rio Cururu estivemos no rio Arapixi, fato que demandou maior tempo de permanência no Marajó, a constituição de duas equipes e dois momento completamente diferentes na vivência. No Arapixi realizamos oficina de Audiovisual, Mostra de Cinema Cururuar, oficina de Horta, além de palestras sobre Alimentação Saudável, Agricultura Familiar e uma pré-conferência de Assistência Social do município, sendo esses últimos realizados em parceria com a Prefeitura do Município, parceria essa que caminha a passos lentos na fase de construção. Na vila de Arapixi tivemos Tamara, Tainara, Joselena, Denilson, Paula, Alessandra, Cleide, Regina e Rosana, todos muito corajosos, na missão de realizar as ações tendo disponível somente uma manhã para mobilizar o maior número de participantes possível. Foi necessário batermos de casa em casa, nas mais de 150 casas da vila, para que pudéssemos ter público nos três dias de atividades. Sem conversa prévia, sem entender direito o que estávamos propondo, o público foi aos poucos se aproximando. Em mais de 100 anos de existência, era a primeira vez que acontecia uma sessão de cinema no Arapixi, de fato um acontecimento, pois além de assistir aos filmes, os jovens puderam produzir seu próprio filme. Tão lindo quanto, foi ver  brotar o valor e a importância da horta, nas mãos dos participantes da oficina, cerca de 50 entre crianças, jovens e adultos. No simples e grandioso gesto de plantar mudas, concretizamos o verdadeiro propósito do CURURUAR: construir e cuidar de tudo e todos.

2017 está sendo um ano rico em encontros. Além de todos mencionados até aqui, também tivemos Amanda, nossa menina doce, que tanto nos foi preciosa na construção da oficina de bonecos e na exposição de encerramento no Cururu. A tripulação do FLUVILAB se renovou, no entanto intensificamos a essência participativa do CURURUAR. Conceição, Manduca, Breno, Joday, Qualhada, Frank, Ledinho, formaram a equipe que, por quarenta dias, nos nos acolheram em seus colos, confirmando que o processo de imersão no CURURUAR, extrapola o momento das oficinas e alcança profundidade no lugar em que são constituídas as relações. A vivência se intensifica no decorrer do tempo, quando deixamos de ser parceiros de trabalho, ou mero orientadores e participantes das oficinas, e nos tornamos amigos. Ficou cada vez mais intenso e expontâneo o envolvimento de todos na realização do do CURURUAR, que hoje acredito estarmos deixando a condição de projeto e nos tornando uma espécie de movimento, o mesmo que faz fluir as águas do rio Cururu e transforma toda a paisagem em volta.

Betânia B.

 

2016

https://cururuar.org/percurso2016/