percurso 2016

Comecei a fotografar no Cururu em 2003. Naquela época, tinha o costume de fotografar durante o dia e assistir as imagens na TV a noite, numa espécie de programa televisivo, onde o roteiro era produzido pelos acontecimentos do dia, narrados pela plateia que se reunia na sala da Cheia de Graça. Era uma fotografia despretensiosa, comprometida somente com o desejo que tínhamos de nos ver em uma fotografia.

Com o passar dos anos, a televisão foi posta de lado, o trabalho foi se aprofundando gradativamente e passei a produzir retratos noturnos. Um processo que exigia, em média, 30 segundos de postura rígida e altiva do retratado diante da câmera, do contrário a imagem não passaria de um borrão, o rastro de uma aparição na imagem fotográfica.

Diante deste procedimento, não tardou em surgir a indagação: Como fizestes para me colocar dentro da câmera? Essa curiosidade gerou outra pergunta: Por que não tornar acessível a eles os conceitos e técnicas que envolvem a produção fotográfica? Desde então, carreguei o desejo de compartilhar as práticas e subjetividades que envolviam minha produção de imagens.

O momento seguinte, foi a vontade de transformar o antigo barco boiadeiro, Orvalindo & Filhos, de propriedade do meu falecido avô, em espaço de realização de oficinas fotográficas. Com ele seria possível acessar os rios do município de Chaves e construir uma espécie de cartografia, a partir das vilas ribeirinhas onde as oficinas seriam realizadas. Criamos, assim, nosso FLUVILAB.

A vasta área territorial do município, o acentuado isolamento das vilas pela dificuldade de acesso, o grande número de participantes que pretendia alcançar, entre outras questões, me fizeram perceber a necessidade de envolver mais pessoas para realizar o trabalho. A partir desta demanda, encontrei amigos e parceiros, dentro e fora de Chaves, que se dispuseram a abraçar a ideia, tornando vital a troca e interação entre os grupos para alcançarmos a concretização do projeto.

Elegemos o rio Cururu como ponto inicial de nossa rota de navegação, por ser o lugar onde se constituíram as relações que eclodiram no projeto. Em seguida, o inscrevemos no edital da 12ª Edição do Programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais, com o intuito de viabilizá-lo. Fomos contemplados no edital, no entanto, antes mesmo de o barco desatracar, surge nosso primeiro desvio: fomos informados de que o pagamento do prêmio seria adiado por tempo indeterminado.

Contávamos com um calendário estabelecido pela natureza, que nos impunha o acesso do barco às vilas participantes somente no período de cheia no Marajó que, naquela altura, já se aproximava. O não cumprimento daquele calendário, significava o adiamento do projeto por mais um ano, sendo que, naquele momento, as vilas se encontravam agitadas com a perspectiva da realização das oficinas. Seríamos todos tomados por um sentimento de frustração, que abalaria de maneira contundente as estruturas do projeto.

Inicialmente, o grupo formado em São Paulo tinha como demanda a elaboração do projeto de oficinas fotográficas que culminaria com um fotovaral, no Cururu, e a produção de um livro de memórias, concebido a partir da vivência nas oficinas. Fazia parte deste processo, a realização de uma roda de conversa para o lançamento deste livro em São Paulo. Os grupos formados em Belém e Marajó se empenhariam na logística e produção do projeto no Pará.

Com objetivo de não postergar a realização do projeto, partimos em busca de uma quantidade maior de parceiros. Montamos uma expedição, com o Hostel Recidência BeB, onde os integrantes tiveram a oportunidade de vivenciar conosco o processo das oficinas no Cururu. Também conseguimos uma significativa doação de alimentos e suprimentos para os 30 dias em que o projeto se instalaria no Marajó. Com a profusão das atividades, um número maior de pessoas integraram-se ao projeto. O que seria um coletivo fotográfico constituído por quatro integrantes com a finalidade de orientar oficinas no Marajó foi ampliado, tornando-se um grande grupo a trabalhar coletivamente em São Paulo, Belém e Cururu, dedicados a incentivar a prática fotográfica e as trocas de experiências no território do Cururu.

Foi necessário aprofundar o mergulho para encontrarmos soluções demandadas  pelo próprio lugar. Tínhamos o barco, mas quem o conduziria? Como montar o laboratório fotográfico no porão, se não teríamos acesso ao “Orvalindo & Filhos” antes de sua chegada no Cururu? Com a impossibilidade de comunicação direta pelo isolamento proporcionado pela região do Marajó, como reuniríamos os 100 participantes nas oficinas?

Foi necessário nos entranharmos nas artérias do rio e buscar, no convívio com o moradores das vilas, recursos que assegurassem o andamento e materialização do Cururuar. Aprendemos com as situações que se impunham no decorrer deste processo: seria mais rico e eficiente, por exemplo, entender a maneira pela qual os cururuenses processavam o alimento, a ter de ingerir enlatados durante o período em que permaneceríamos lá. Episódios como este se repetiam nas mais diversas esferas. Foi destes entendimentos que passamos a nos transformar, nos tornando cada vez mais CURURUS.

Os desvios exercidos em virtude da reconfiguração do projeto nos mostraram que as alterações diversas da rota inicial nos colocariam à deriva, de maneira tão substancial que passamos de projeto cultural a projeto-poesia. Já não fazia mais sentido mapear os rios de Chaves, atracando e desatracando o FLUVILAB, orientando oficinas pontuais. Nosso desejo tem nos levado para rotas onde a autonomia da produção de artística iniciada no Cururu irá escoar, com a fluidez das águas, para outros cantos do município.

Betânia B.