processos

As oficinas promoveram a produção fotográfica por meio de recursos naturais e químicos. As práticas produzidas introduziram os participantes aos princípios fotossensíveis e reprodução de imagens. Utilizamos técnicas que estimulam a percepção visual e favorecem a autonomia de sua prática em um lugar com escassez de insumos habitualmente utilizados na produção fotográfica. Câmeras construídas artesanalmente substituíram os dispositivos fotográficos produzidos pela indústria. Folhas de plantas tomaram o lugar dos papéis fotográficos e químicos, contribuindo para integração entre os elementos da cultura local e as técnicas praticadas nas oficinas.

 

fitotipo

O Fitotipo esteve entre as técnicas praticadas em nossa vivência no Cururu. Nele são utilizados folhas de planta, no lugar do papel, como suporte fotográfico. Por ser, a própria folha, um elemento fotossensível, ela dispensa o uso de químicos para a formação e fixação da imagem. Em contraposição, o tempo de formação da imagem se dá em um período muito mais lento do que ocorre no processo químico, havendo a necessidade de horas, ou até dias para sua formação. Sem dúvida ele foi um dos pontos altos de nossas trocas.

Para realizá-lo, experimentamos as plantas locais, afim de identificar folhas com maior grau de fotossensibilidade. Iniciamos a pesquisa durante o verão marajoara, estação com  radiação solar mais intensa. Todas as investidas foram insatisfatórias, pois nenhuma folha respondeu como desejado. Passaram-se os meses e, com a chegada do período chuvoso, o rio cresceu, fazendo surgir as plantas aquáticas e as integramos à pesquisa. Embora nesse período o céu permanecesse nublado, aparentemente ocasionando baixa intensidade de radiação solar, observamos que as folhas das plantas aquáticas Aguapé e Mururé, e da terrestre Sororoca, em um período de aproximadamente três horas, apresentavam os primeiros sinais de formação da imagem, sendo que, em torno de seis a oito horas, dependendo das condições climáticas, obtínhamos um resultado satisfatório.

 

 

fotograma

Fotografar sem câmera, demostrar os processos de revelação da imagem. Da imagem latente à clara manifestação de uma intensão, uma subjetividade.

No Cururu tudo era o agora, o instante mesmo que eu sentia e respirava e fazia. Um pouco antes da emoção da primeira oficina revi mentalmente os passos da técnica: preparação dos objetos, os cuidados necessários para manipular o papel fotossensível, a disposição dos objetos sobre a superfície, a fonte de luz, o tempo de exposição, a sistemática de revelação (revelador, fixador, interruptor e lavagem). Faltava alguma coisa…

Na roda de explicação, antes de entrar na escuridão do laboratório, um sopro de inspiração nos meus ouvidos: composição era o que faltava.

Dispor os objetos, distribuir e posicionar. No ato de falar surgiu um conceito simples: compor é tudo o que você faz para mostrar alguma coisa que esta dentro de você. Parece que funcionou, o fotograma começou a fazer sentido, consegui compor o processo dentro de mim.

 

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câmera obscura

 

oficinas_07

 

Quando eu era criança, tudo tinha que ficar de ponta cabeça. Depois cresci e quase aprendi, o mundo não pode ficar de cabeça para baixo. De lá para cá encontrei uma dobradura em cartão preto, forte e delicada ao mesmo tempo. Duas caixas, uma se encaixa na outra, como na vida tudo deve ser. Uma olha e a outra permite olhar melhor, focalizar o mundo estranho.

A ciência da óptica é um brinquedo de um  menino que não sabia mais brincar. Como é mesmo que monta o brinquedo para que o mundo fique assim?

  • Uma folhas de papel cartão preto
  • Uma lupa
  • Fita crepe
  • Um recorte de papel vegetal
  • Um recorte de papel alumínio
  • Um espinho de tucumã

 

 

pinhole

 

img-20160729-wa0013_2       20160412_MarinaRago_Cururuar_0252.jpg

Que mágica é essa dentro da lata de leite pintada  de  preto? Igual a noite sem lua, daqui e de qualquer lugar.

Primeiro saber o que vai fotografar. Escolher é olhar, buscar, observar. A fotografia está dentro da cabeça da gente e não sai do modo como está na cabeça dos outros. A fotografia na cabeça deles não é a minha.

No escuro do laboratório fotográfico, um pedacinho de  papel zangado, que detesta humidade e é sensível à luz. No calor intenso, gruda e desgruda. Quando me descuido, fica preto, fica cinza, fica qualquer coisa e não fica nada. Preciso pegar com cuidado na beira do papel, que é quase o fim do mundo no escuro onde tudo cai. O coloco dentro da lata, do lado inverso ao furo feito pelo espinho de tucumã.

Tampo a lata, fecho o furo com fita preta, saio do lab e sigo em busca da fotografia que está dentro da minha cabeça. Quando a encontro, é preciso observar a luz: se está suave e branda, vestindo seu véu se sombra, ou se mostra-se inteira, intensa e vigorosa. É necessário delicadeza durante a observação de sua sutil efemeridade, para entender o tempo de exposição do papel à luz. Pode ser alguns segundos, minutos ou até mesmo horas.

Posiciono a lata com o furo de frente para a fotografia e conto os cururus:  um cururu, dois cururus, três cururus… Fecho bem fechado o furo e guardo o tesouro. Imagem latente é um dos nomes do meu tesouro, para encontra-la volto ao lab no porão, abro a tampa, tiro o quase quadrado de papel zangado, e surge a mágica.

Três bandejas com porções mágicas: revelador, interruptor e fixador. Tudo tem seu tempo, 90 cururus, 60 cururus, 120 cururus. Depois água,  muita água. E eis que surge revelada no papel, a fotografia que estava na minha cabeça.

 
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