território

Lembro da primeira vez em que a Tia Olivia esteve no Cururu. No auge do cansaço daquela jovem senhora de setenta e poucos anos, em decorrência da viagem de barco que já durava mais de 30 horas, ela disparou: Naza, como eles encontraram esse lugar? Minha mãe, sorrindo, respondeu com outra pergunta: Minha tia, como eles encontraram Belém?

O rio Cururu encontra-se no interior do município de Chaves, localizado na contra-costa da Ilha de Marajó, estado do Pará.

Talvez esta seja uma das referências geográficas mais precisas e objetivas a respeito desse lugar, porém a impressão é que pouca diferença faz. A realidade é que, mesmo nos dias de hoje, o homem pouco sabe sobre seu território e os próprios paraenses quase nada sabem sobre Chaves e os outros municípios do Marajó, pois mesmo com o advento da comunicação em rede, muitos pontos da Ilha permanecem isolados e em estado rústico de existência – em especial os lugares como Chaves, onde a desproporção entre a área territorial e número de habitantes é enorme. O município configura-se como um dos que possuem maior extensão territorial do país e uma das mais baixas densidades demográficas, constituindo-se como um contraponto aos centros urbanos.

Na região amazônica, há uma abundância de rios sinuosos formando um emaranhado de labirintos que, associados à efemeridade da floresta, fazem com que o trajeto nunca seja o mesmo. Ou seja, durante toda vida viajei para o mesmo Marajó, mas sempre por diferentes caminhos.

Deslocamentos que em grande parte dos centros urbanos parecem ser simples – como a ida ao mercado ou o passeio de domingo –, em Chaves tomam proporções gigantescas, devido às longas distâncias e complexidade do trajeto. Essas características fazem com que o caboclo marajoara que habita o município de Chaves, seja uma espécie de nômade de seu próprio lugar.
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